O silêncio também comunica
Ana Carolina Damázio da Costa
Acesse aqui a matéria que deu origem a este texto: Federação Francesa vai à Fifa por música racista cantada por jogadores argentinos
O futebol costuma ser celebrado como um espaço de encontro entre povos, culturas e nações. Dentro de campo, a competição termina quando o árbitro apita o fim da partida. Fora dele, algumas disputas permanecem. O racismo é uma delas.
Nos últimos anos, episódios envolvendo torcedores e jogadores argentinos voltaram a ocupar as manchetes. Cânticos racistas direcionados a atletas franceses após a conquista da Copa América de 2024, insultos contra jogadores negros em competições internacionais e novas denúncias durante a Copa do Mundo de 2026 mostram que o preconceito não desapareceu do futebol. Ao contrário, ele continua sendo tratado como um problema circunstancial, quando revela uma estrutura muito mais profunda.
Diante desse cenário, uma pergunta passou a circular entre jornalistas, torcedores e movimentos antirracistas: onde está Lionel Messi? A questão não surge porque Messi seja responsável pelos atos cometidos por torcedores ou por outros jogadores. Tampouco porque existam declarações suas defendendo o racismo. O questionamento nasce da dimensão que sua imagem alcançou.
Poucos atletas possuem tamanho reconhecimento mundial. Poucos exercem tanta influência sobre crianças e jovens. É nesse ponto que o debate deixa de ser sobre futebol. Toda sociedade produz referências. São elas que ensinam, muitas vezes sem percebermos, o que significa ser líder, quais comportamentos merecem reconhecimento e quais injustiças podem ser ignoradas.
A juventude aprende observando. Aprende na escola, na família, nas redes sociais e também no esporte. Aprende quando um ídolo se posiciona. Aprende, igualmente, quando ele escolhe permanecer em silêncio. Nenhum jovem nasce naturalizando o racismo. Esse aprendizado é construído socialmente. Ele aparece nas piadas consideradas inofensivas, nos apelidos, nos comentários sobre corpos negros, na ausência de protagonistas negros em determinados espaços e na dificuldade de reconhecer o racismo quando ele beneficia quem está em posição de privilégio. A educação acontece o tempo todo, inclusive fora da sala de aula.
É por isso que o silêncio de grandes lideranças nunca é apenas uma decisão individual. Quando uma personalidade admirada por milhões evita condenar manifestações racistas que atingem seu próprio contexto, transmite uma mensagem, ainda que involuntária. Em uma época marcada pela circulação acelerada de informações, a ausência de posicionamento também produz sentidos.
A juventude vive um paradoxo. Nunca teve acesso a tantas vozes e, ao mesmo tempo, enfrenta um cenário em que discursos de ódio, xenofobia e racismo circulam com enorme velocidade. Nesse contexto, figuras públicas ocupam um lugar importante na formação ética das novas gerações. Não porque devam substituir a escola ou a família, mas porque ajudam a definir quais valores são legitimados no espaço público.
Ao longo da história, alguns atletas compreenderam essa responsabilidade. Muhammad Ali recusou o silêncio diante da guerra e do racismo. Tommie Smith e John Carlos transformaram um gesto olímpico em um marco da luta pelos direitos civis. Mais recentemente, Vinícius Júnior decidiu enfrentar publicamente o racismo que sofre nos gramados europeus, deslocando a discussão para além do esporte e estimulando milhares de jovens a reconhecer que nenhuma forma de discriminação pode ser tratada como normal.
Talvez a pergunta mais importante não seja "por que Messi não fala?". A pergunta é outra: O QUE A JUVENTUDE APRENDE QUANDO SUAS MAIORES REFERÊNCIAS ESCOLHEM NÃO FALAR?
Toda geração é formada por exemplos. Alguns inspiram pela coragem de enfrentar injustiças. Outros permanecem lembrados pelo silêncio diante delas. Em uma sociedade comprometida com a democracia e os direitos humanos, combater o racismo não pode ser entendido como uma escolha individual ou uma questão de conveniência. Trata-se de um compromisso ético.
Os jovens herdarão o mundo que estamos construindo hoje. Também herdarão os exemplos que escolhemos oferecer. Se desejamos uma sociedade em que o racismo não encontre espaço, precisamos ensinar, por meio das palavras e das ações, que nenhuma violência pode ser normalizada. Porque o silêncio nunca é vazio, ele também educa.
Sugestão de leitura
RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Nesta obra a autora demonstra que o enfrentamento ao racismo não depende apenas de leis ou punições, mas de escolhas cotidianas. Entre elas, a decisão de não permanecer em silêncio diante da discriminação.
